Meus fragmentos insolúveis

Meus olhos escondem marés agitadas
O silêncio ocupa meu incômodo contido
A nobreza dos meus singelos sentimentos
Se cansa, se dá por vencida.

É tentador! Insisto em uma busca incessante
Encontrar o que foi perdido...
O que não mais cabe em minhas mãos
Parece não mais pertencer a mim.
A fadiga me faz acreditar
Ser incapaz de conseguir entregar algo a qualquer alguém

À deriva, escrevendo meu próprio espaço e tempo,
Sinto-me um papel amassado, rasurado,
Cheio de palavras apagadas e reescritas.

Tantos porquês nadam em minha mente;
Talvez e de repente,
Eu consiga me alcançar
E me salve de mim.

E se fosse?!

Completamente entregue à minha parte incompleta
Brinco de ser outra
Faço de mim um novo emaranhado de gente
Talvez mais doce, mais amarga
Ou mais quente

Na intensa decisão de ser,
Meu comodismo se contorce
Os arrepios da mente se aguçam
Mas o medo não me alcança

Eu fico só, nua de alma;
Inteiramente entregue aos meus não ditos, aos meus não feitos
Nuances de tons inalcançáveis
Do Sol que não bate em minha janela

Freud explica?


Invade em meu ser a sensação de incompreensão sobre mim
É dificil decifrar os breves sinais do meu mundo onírico
Talvez, o que me falte seja coragem:
Minha proteção é minha ausência.

Enfrentar meu caos interno
É uma atitude desprovida de qualquer tom poético
Eu sou feliz por ter sua lembrança viva em mim
Por uma parte de mim querer permanecer e te ter aqui

A imagem ainda é clara, não se apagou da memória:
Em minha posição fetal, você me protege
Como se fizesse um casulo, me amparando

Percebo encontrar em você
Um refúgio provisório de reposuo
Onde estar em mim, não seja tão doloroso

A intenção de resistir não é aceita
E então meu caos adormece
E no intervalo dos sonhos,
Meu corpo aprende
A (tentar) não fugir.

Pode morar no meu colo


Carrego na memória
O cheiro doce das lembranças
Cada pequeno passo até chegar a este marco —
Juntos, permanecemos aqui

Nos olhos marejados
Com os cabelos molhados
Os pés descalços
E as mãos entrelaçadas

Os descaminhos contamos nos dedos
Nossa luta quase árdua, porém lutada lado a lado
Nemou-se fardo leve
O agora nos compõe, nele construímos nosso lar
Tudo que vivemos fez da nossa história
Um poético pedacinho de nós

aspas
A cada nova linha que completo
Um novo amanhecer se faz aqui
Trazendo luz pra minha escuridão interna

As linhas em branco
Me concedem o poder
De traduzir as fagulhas do meu caos interno
E me aproximar cada vez mais de mim

(Em branco, escrito em 25 de abril de 2023)